Sábado, 31 de Maio de 2008

Só pra deixar coisas legais aqui.

"...nada tem solução se você não estiver a fim de entender. A verdade é uma coisa grande demais para ser contida numa sala de executivos por maior que ela seja. A verdade está nas ruas, nos olhos de quem compra, na boca de quem vende. É preciso ir buscá-la. Quem não gasta spato, não perde tempo, não encosta a barriga no balcão não consegue apreendê-la. A apreensão da verdade é o primeiro passo para quem quer entender as coisas. Nesse processo é fundamntal o interesse, a capacidade de se encontrar com o problema. Carlos Bernardo Pecotche, um dos maiores humanistas da nossa época, disse que as coisas guardam um segredo que só se revela para quem tem interesse em conhecê-las. É uma profunda verdade. As informações passam pela mente indiferente, como água nas costas de um pato. Sem tocá-la. É preciso estar com a sensibilidade aberta para reconhecer a verdade quando ela aparecer. A mente é uma faculdade operária; ensina-nos a amarrar os sapatos, mas não escreve poemas de amor. As faculdades mais importantes são as sensíveis. Segundo Pecotche, estas nunca se enganam. Portanto, quer estejamos fazendo amor ou olhando um pacote de detergente, é preciso estar ligado. Uns tem maior capacidade de ligar-se sensivelmentee ao problema, outros menos, mas sensibilidade, todos têm. Talvéz, com algumas exceções."

Segunda-feira, 21 de Abril de 2008

Então...

'O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada pelas imagens.'

Alguns pensamentos perdidos...

O que fazer com tanta lógica quando alguém já disse que existe algo de subjetivo no mundo que é muito sensitivo e nada tem a ver com explicações matemáticas. A famosa intuição não pára de aflorar em todos nós, mas em alguns ela ainda é mais presente. Eu tenho uma teoria pretensiosa. Na verdade, pode até ser um plágio do que algum teórico já escreveu, uma vez que não estudei para falar o que falarei dessa teoria. Estudar sempre está sendo cenas do próximo capítulo, ou seja, estou sendo bastante empírica. Pois bem, lendo um pouco sobre a percepção, obtive sensibilidade para pensar sobre os nossos sentidos e o que eles conseguem apreender da realidade. Então eu achei interessante dizer que no nível inconsciente residem os fragmentos do que a gente captou pelos sentidos convencionais: visão, audição, tato, etc, mas que não percebemos, daí estarem no inconsciente. E é o acesso que temos a esses dados que nos tornam mais ou menos sensitivos, capazes de prever alguns acontecimentos sem entender o porquê. Sabemos que quanto mais informações temos sobre os fatos, sobre a realidade, mais capazes somos também de prever o futuro, fazer associação das variáveis e "calcular" repercussões. Portanto, quando mais percebemos o ambiente, até mesmo o que está imperceptível normalmente, mais estamos a frente nas predições. Tem muita gente por aí que é antena dos fatos. Nada é tão simples como esse esquema que fiz, as variáveis independentes estão soltas, nossas limitações, nossos medos nos impedem de sermos assertivos. Enfim "nossos sentidos nem nos mentem, nem nos falam a verdade." É por isso que eu não procuro explicação para tudo, é por isso que já desisti de entender muitas nuances referentes a determinados comportamentos. Categorizar, rotular é muito perigoso, principalmente quando estamos emocionalmente envolvidos. A emoção causa ruídos no entendimento que podemos fazer do mundo e é muito importante ter isso claro em mente.
Agora, aproveitando tudo o que escrevi e associando aos fatos atuais apresentados na mídia sobre o infanticídio, gostaria de lembrar que por trás das imagens escolhidas, existem muitas outras que não são mostradas. Que por trás da intenção de informar, "ou mesmo pela frente da intenção de informar", existe a necessidade de fazer mais e mais audiência. Para isso é preciso prolongar as narrativas, confundir as pessoas. Podemos observar que existem contradições, espetáculos, mistérios e muitas variáveis que não conseguimos perceber por mais "bem informados" que a mídia nos tente manter. Não estou sendo advogada de ninguém, só acho que o cenário é confuso, não conhecemos tecnicamente o comportamento humano, não temos acesso aos fatos e estamos sendo bombardeados pela mídia. Vale a pena refletir, cuidar para não julgar nada, nem ninguém sem conhecimentos suficientes. Quantos crimes bizarros na literatura nos levam a caminhos que nunca poderíamos imaginar. E o pior, nada mais utilizado para provocar audiência do que crimes não resolvidos.
Sociedade, cuidado com a percepção.

Quinta-feira, 17 de Abril de 2008

Lista do TVez. Pertinente. Quão relativa é a cultura?

Do infanticídio

http://www1.
folha.uol.com.br/folha/pensata/helioschwartsman/ult510u390569.shtml

Quão universais são os direitos universais? Colocar a pergunta dessa forma já trai uma resposta. Mas talvez seja melhor começar pelo começo.
Esta coluna tem por objeto a reportagem da Folha publicada no domingo sobre o infanticídio entre grupos indígenas. Alguns de nossos "bons selvagens", como se sabe, costumam matar logo que nascem gêmeos, filhos de mães solteiras e portadores de outras "maldições". A prática é comum em pelo menos 20 das mais de 200 etnias que vivem no país. Com o apoio de ONGs de direitos humanos, tramita no Congresso Nacional um projeto de lei que pretende coibir "práticas tradicionais que atentem contra a vida".
Pela proposta, "qualquer pessoa" que tenha conhecimento de casos de uma criança em situação de risco e deixe de informá-lo às autoridades responderá por crime de omissão de socorro.
É bem verdade que a pena sugerida é quase simbólica: vai de um a seis meses de detenção ou multa. O projeto, entretanto, me parece um equívoco.
Calma, ainda não me tornei um relativista feroz. Longe de mim defender o infanticídio, em especial nas condições em que os índios o praticam. Sou pai de gêmeos e posso asseverar que, embora endiabrados, filhos que nascem aos pares não chegam a constituir uma maldição. Tampouco o são aqueles cujas genitoras não sejam casadas. Até concordaria com o "saber dos povos da floresta" no caso de algumas moléstias congênitas muito graves, mas não creio que a maioria das tribos já tenha chegado a tal requinte de diagnóstico.
No mais, não me incluo entre os que colocam no mesmo plano a civilização ocidental e a cultura dos pirahãs, por exemplo. Enquanto esses índios mal contam até quatro, nós desenvolvemos o cálculo infinitesimal e com ele mandamos o homem à lua (e trouxemos de volta, o que é mais importante). Tampouco renunciei à idéia de que existe um núcleo de direitos fundamentais que devemos procurar estender a toda humanidade. Evidentemente, o respeito à vida e a integridade das crianças faz parte desse conjunto.
Minha discordância em relação ao projeto de lei diz respeito aos métodos. Não creio que a melhor maneira de combater o infanticídio entre índios não-aculturados seja criminalizá-lo. Se tornar determinadas práticas ilegais bastasse para coibi-las, não conviveríamos com epidemias de uso de drogas --e experimentos como a Lei Seca teriam sido um sucesso.
Paralelamente, é preciso um cuidado especial quando estamos lidando com culturas mais primitivas que a nossa. No afã de ajudá-los e civilizá-los, podemos acabar produzindo verdadeiros desastres, talvez até piores do que o mal que pretendíamos evitar. Já desenvolvi esse tema na coluna "Os índios, a felicidade e a caverna", de modo que me permito, aqui, passar ao largo da questão.
O melhor caminho, acredito, é tentar mostrar, pela via do convencimento e não a da coerção, que gêmeos, filhos de mães solteiras e portadores de deficiências não são uma "maldição". Quanto mais isolados forem os índios, mais cuidado precisamos ter.
O que pretendo examinar melhor nas linhas restantes é a aparente contradição entre a idéia de direitos universais e a tolerância para com tradições que supostamente os violem.
Fazendo um pouco o papel de advogado do diabo, quer dizer, dos índios, o infanticídio de recém-nascidos não é senão um caso extremo de aborto tardio. E mais ou menos a metade do Ocidente acredita que o aborto é um direito da mulher. Nos países onde a interrupção da gravidez é lícita, ninguém exige da ex-futura mamãe que justifique a razão pela qual optou pelo procedimento. Se ela quiser, pode descartar o embrião por motivos ainda mais etéreos que a "maldição" dos índios.
Esse "insight" já basta para deslocarmos o busílis. O problema, como sempre, é de interpretação. Acho que ninguém, aí incluídos eu, os índios, o papa e Gêngis Khan, discorda de que a vida deve ser preservada. A questão é, como sempre, estabelecer as situações em que a regra vigora e aquelas em que não vale.
Não existem sociedades para a morte. Mesmo regimes assassinos como o Terceiro Reich cuidavam de excluir judeus e ciganos, suas vítimas preferenciais, do rol da humanidade. Eles eram "sub-raças". Eliminá-los, portanto, não era mais grave do que abater um animal.
Cláusulas de exclusão não são privativas de tiranias. Mesmo a mais abertas das sociedades estabelece condições nas quais é lícito, senão desejável, matar outros seres humanos. Tais situações vão desde a legítima defesa até o estrito cumprimento do dever, passando pelo estado de necessidade. Um caso particularmente chocante é o da guerra. Não apenas aceitamos que nossos jovens eliminem "inocentes" --o soldado inimigo, até onde se sabe, não cometeu nenhum crime--, como ainda damos medalhas para aqueles que se revelarem homicidas mais competentes.
Daí que mesmo direitos "universais", como os que constam da declaração de 1948, são de algum modo "relativos". Tanto é assim que a declaração foi aprovada na Assembléia Geral da ONU em 10 de dezembro de 1948 pelo placar de 48 a zero com oito abstenções. Nem mesmo a União Soviética de Stálin julgou que era o caso de votar contra o documento. Em sua interpretação, eventuais descumprimentos da letra da Declaração estavam sempre justificados por cláusulas de exceção. Isso prossegue até hoje. Não deixamos de prender criminosos condenados porque o artigo 3º do texto reza: "Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal". Anunciados em tal grau de generalidade, princípios não ameaçam ninguém. Os problemas só surgem quando se detalham as exceções.
Tal análise, reconheço, é quase um convite ao cinismo. Receio, porém, que não haja outro caminho. Não podemos erigir absolutos, nem para a lei nem para o pensamento, sem escancarar as portas para os piores fanatismos. Se o direito à vida desde a concepção é sempre e em todo caso inegociável, como sustentam alguns grupos religiosos, torna-se lícito e até virtuosos assassinar médicos que praticam o aborto. Na mente do zeloso ativista, o paradoxo nem se coloca. Houve casos assim nos EUA. É a lógica dos homens-bomba. Suas conseqüências são tanto mais funestas quanto mais acreditamos que ela esteja a serviço da verdade e do bem.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas

Lista do TVez!

Tudo que é sólido se desmancha em imagens espetaculares
Experiência intelectual do pensador francês Guy Debord revitalizou a discussão do marxismo ocidental
Vladimir Safatle
Há 40 anos, enquanto revoltas explodiam pelos campi do mundo, um livro rapidamente se transformava em referência para a ala mais aguerrida do movimento estudantil francês. Tratava-se de A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord. Seu destino, assim como o destino geral das idéias de seu autor, aparece hoje como um dos legados mais sólidos de maio de 68, já que sua experiência intelectual contribuiu de forma decisiva para a maneira como compreendemos os desafios postos pelas sociedades capitalistas contemporâneas às nossas expectativas de emancipação.

Tal força vem do pensamento de Debord ter se colocado na confluência de duas experiências maiores do século 20: os desdobramentos das vanguardas modernistas e a tradição crítica forjada no interior do marxismo ocidental. Confluência evidenciada pela sua produção híbrida de teórico e cineasta.

Por um lado, fiel ao programa modernista de elevar a forma estética a setor avançado da crítica à inautenticidade da vida social, Debord desde cedo foi sensível à transformação da cultura em campo fundamental de batalha na sociedade capitalista. Foi tal espírito que o levou a fundar, juntamente com artistas vindos dos movimentos Cobra, letrismo e Bauhaus imagista, a Internacional Situacionista.

Por outro, Debord construiu, durante os anos 50 e 60, uma peculiar filiação ao marxismo ocidental do Georg Lukács de História e Consciência de Classe, com seus conceitos de crítica da reificação e de universalização da forma-mercadoria enquanto chave para a compreensão dos processos de racionalização social. Tal filiação foi responsável pela sua posição ímpar no interior do pensamento francês contemporâneo. Seu hegelianismo e sua insistência na noção de processo histórico o levara a criticar duramente o estruturalismo, corrente hegemônica na França de então. Já sua insistência em continuar operando com categorias aparentemente obsoletas como: consciência de classe, ideologia, reificação, negatividade e força revolucionária do proletariado o afastou da vaga pós-estruturalista que ganhou força após maio de 68, principalmente através de Deleuze e Foucault.

DA ECONOMIA À CULTURA

A influência do pensamento de Guy Debord não pode ser compreendida sem introduzir este que é seu conceito central: 'espetáculo'. Resultado do advento de uma era em que a produção econômica se submete à lógica que coloniza a cultura após o esgotamento da força diruptiva das vanguardas, a noção de espetáculo visa dar conta do núcleo das transformações contemporâneas nas técnicas de governo. Transformações que colocaram a produção do espetáculo no cerne dos dispositivos de colonização de nossas formas de vida.

Quando Debord fala em 'espetáculo', ele tem em mente dois processos distintos porém convergentes. Primeiro, o espetáculo é 'uma relação social entre pessoas, mediada por imagens'. Neste ponto, o teórico francês compartilha esta tendência maior da modernidade em compreender o pensar por imagens como uma forma degradada de conhecimento.

A este respeito, lembremos como, principalmente a partir do século 19, a imagem será vista como a peça fundamental para a constituição de situações de alienação nas quais o potencial reflexivo ficaria bloqueado. Assim, por exemplo, no interior das relações de interação social, as massas alienadas teriam por característica maior deixar-se guiar por imagens. Psicólogos sociais do final do século 19, como Gabriel Tarde e Gustave Le Bon, não diziam outra coisa.

No interior deste pathos conservador há ao menos um pressuposto importante: entre algo e sua imagem, a relação pode ser de exclusão. A coisa não é necessariamente aquilo que se conforma à sua imagem. Por um lado, estar na imagem é necessariamente estar aprisionado ao olhar do Outro. Por outro, uma imagem congela, fixa, transforma o mundo em um conjunto de objetos submetidos à visibilidade integral do que só é por ter sua essência submetida ao modo do sujeito organizar o existente através da visão. Era nisto que pensava Bergson, com sua distinção entre imagem (domínio da estaticidade e da estereotipia) e duração (domínio da fluidez do que tem sua essência no tempo). Influência bergsoniana que aparece quando Debord fala do espetáculo como modo de passar do estado fluido ao estado coagulado, como 'organização social da paralisia do tempo'.

Mas a engenhosidade de Debord consistiu em vincular tal crítica da razão a uma crítica da economia política. Pois a segunda acepção de 'espetáculo' consiste em afirmar que ele 'é o momento em que a mercadoria ocupou totalmente a vida social'. Derivação da idéia de Lukács segundo a qual a forma-mercadoria transformou-se na forma geral da objetividade. Afirmação que pode ser compreendida se nos perguntarmos o que acontece quando um objeto é visto imediatamente como mercadoria. Digamos que suas qualidades singulares serão abstraídas para que ele se transforme em algo cujo valor será expresso no que Marx chamava de equivalente-geral (o dinheiro). Assim, todas as diferenças podem ser submetidas à forma geral da identidade. Mas isto implica também que todo objeto será sempre separado de si mesmo. Enquanto mercadoria ele será apenas momento de um processo de auto-valorização do capital.

Debord precisou apenas lembrar como esta abstração mercantil que transforma as diferenças em forma modular do mesmo não é apenas um processo econômico. Ele tende a colonizar todas as formas das relações sociais, inclusive as relações a si mesmo. Um processo de abstração que, por sua vez, é idêntico à força que faz de todo objeto uma imagem de si, uma aparência de si mesmo desprovida de substância. Processo cujo nome próprio é 'espetáculo'. O nome da força que parece tragar inexoravelmente nossa forma de vida e colonizar nossas pulsões. O nome desta forma astuta de controle que, segundo Debord, é o cerne do que deve ser destruído para a força revolucionária da mudança enfim se impor.

Vladimir Safatle é prof. do Departamento de Filosofia da USP e autor de A Paixão do Negativo: Lacan e a Dialética (Unesp, 2006 )


Teses


'Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação.'

'O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada pelas imagens.'

'O espetáculo domina os homens vivos quando a economia já os dominou totalmente. Ele nada mais é que a economia desenvolvendo-se por si mesma.'

A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO (EDITORA CONTRAPONTO, 1997)

Idéias

SITUACIONISMO: A Internacional Situacionista foi criada em 1957, na Itália. Os situacionistas criticavam ao mesmo tempo a sociedade 'espetacular' e mercantilista, de um lado, e o capitalismo de Estado soviético, de outro. Defendiam a instalação de conselhos operários nas fábricas e tiveram papel-chave nos acontecimentos de maio de 68 na França.

HISTÓRIA E CONSCIÊNCIA DE CLASSE: Título do livro-chave de Georg Lukács, indispensável para entender as idéias de Debord. Lukács articula os conceitos marxistas de 'alienação' e 'fetiche da mercadoria' para falar de uma alienação de classe social, capaz apenas de uma 'consciência possível' da sua real condição social. Debord dá um passo além. À base econômica da alienação, ele ajunta o conceito de imagem, que intermedia a troca de mercadorias, e cujo exemplo maior vem da publicidade.

IDEOLOGIA: De acordo com o marxismo, a ideologia é um sistema de pensamento em aparência autônomo, mas de fato dependente das condições materiais da sociedade na qual é produzida.